Economia de impacto ganha escala quando conecta redes, territórios e política pública
Publicado em 20/09/2026
Articulação entre atores, fortalecimento dos territórios e incorporação da agenda de impacto às políticas de desenvolvimento estiveram entre os principais pontos do debate realizado no FITS.
O Rio de Janeiro já reúne centenas de negócios e organizações ligados à economia de impacto, mas transformar esse potencial em desenvolvimento passa por três movimentos: conectar atores ainda dispersos, fortalecer redes capazes de gerar soluções a partir dos territórios e incorporar sustentabilidade e impacto às políticas de desenvolvimento. Esses foram os principais pontos de convergência do painel realizado nesta quinta-feira (17/09), durante o FITS — Fórum Global de Inovação e Tecnologia em Sustentabilidade, no Sebrae, Rio de Janeiro.
Em formato de conversa, o painel reuniu a diretora do Observatório dos Negócios de Impacto Social e Ambiental, Inessa Salomão; a coordenadora de Comunidades do Sebrae Rio, Juliana Oliveira; o agente no PISTA e conselheiro da Anprotec, José Alberto Aranha; e o coordenador de Sustentabilidade e Diversificação Produtiva da SEDES, Fabrício Almeida, com mediação da jornalista Geiza Rocha, coordenadora do movimento Rio de Impacto, que abordaram o avanço do mapeamento do ecossistema para formação de redes, o empreendedorismo nos territórios, a inovação social, e o papel da diversificação econômica e da política pública.
Realizado desde 2018, o FITS se consolidou como espaço de discussão sobre sustentabilidade, tecnologia e inovação. Entre 2018 e 2025, foram 17 edições, 209 sessões e 727 palestrantes do Brasil e do exterior, com cerca de 3,8 mil participantes presenciais e 27,2 mil virtuais. Ao longo dessa trajetória, incorporou à agenda temas como transição energética, bioeconomia, economia circular e azul, transformação digital, empreendedorismo e impacto social.
Um ecossistema que existe — mas precisa se reconhecer e se conectar
Inessa Salomão dimensionou o ecossistema que já existe no estado. O Observatório identificou mais de 540 negócios de impacto e 140 organizações dinamizadoras no Rio de Janeiro — mais de 650 entidades, do nanoempreendedor e do MEI a empresas que já operam em outros estados e até internacionalmente. O desafio é transformar mapeamento em conexão:
“Nosso grande desafio é identificar essas redes, como é que fomenta e como conecta a cadeia de valor com a cadeia produtiva, com a política pública.”
Juliana Oliveira acrescentou outra dimensão: há empreendedores que já geram impacto social e ambiental, mas não reconhecem aquilo que fazem como um negócio de impacto, situação ainda mais evidente em favelas e periferias. A experiência do Sebrae com programas de aceleração revelou uma distância entre quem tradicionalmente chega a essas iniciativas e os empreendedores dos territórios.
“Dentro desses territórios há dinamizadores, sim, e são eles que vão ser a voz para conseguirmos chegar e conhecer esses negócios.”
Inessa reforçou que essa falta de reconhecimento não se restringe às periferias: já encontrou, em grandes eventos de inovação, empreendedores com soluções associadas ao impacto que sequer conheciam o conceito. Há ainda uma concentração territorial: mais de 75% das dinamizadoras mapeadas estão no município do Rio, embora muitas atuem em outras regiões. O desafio é, portanto, entender quem ainda não está visível e como conectar as diferentes partes desse ecossistema.
Do empreendedor à rede que sustenta o território
A discussão sobre conexão levou José Alberto Aranha a deslocar o foco do negócio individual para o território. A partir da experiência do PISTA, que atua em favelas, periferias e cidades do interior, ele observa que o principal obstáculo nem sempre é a falta de recursos. “A dificuldade é a interação entre os atores. Os territórios têm um nível de amadurecimento pela capacidade de se organizarem em redes.”
Se existem centenas de negócios e dinamizadoras, o valor desse conjunto depende da articulação entre empresas, universidades, governos, organizações sociais, investidores, moradores e coletivos.
“Não é apenas o empreendedor que tem um resultado muito bom, mas toda a rede que sustenta esse empreendedor também é beneficiada”, explicou Aranha.
Nesse processo, destacou a figura do empreendedor cívico, capaz de articular diferentes atores em torno das necessidades e potencialidades do território.
Juliana trouxe novamente a discussão para os negócios: essa rede precisa apoiar desde quem ainda tenta compreender o conceito de impacto até empreendimentos que já validaram seus modelos e buscam novos mercados. E precisa juda-los a conciliar propósito e sustentabilidade financeira. “Empreender um negócio de impacto é ainda mais difícil, porque o seu propósito tem que estar muito claro.”
Quando a rede encontra a política pública
Se as redes sustentam empreendedores e territórios, o passo seguinte é criar condições para que essas conexões não dependam apenas de iniciativas pontuais. Nesse sentido, a criação do Comitê Estadual de Negócios de Impacto foi apontada como uma boa notícia para o ecossistema fluminense, ao estabelecer um espaço institucional de articulação, debate e construção de políticas públicas para a agenda de impacto.
Fabrício Almeida trouxe para a conversa a necessidade de inserir essa agenda no planejamento econômico do estado, defendendo que sustentabilidade e impacto deixem de ocupar posições periféricas. “A dificuldade é colocar a sustentabilidade não como um apêndice, um anexo, mas como eixo estruturante de política de desenvolvimento.”
A reflexão dialogou com a defesa de Aranha de políticas capazes de formar articuladores e fortalecer redes locais. Para ele, o avanço da inovação e da tecnologia social e a aproximação das universidades com os territórios abrem oportunidades para a extensão universitária, a formação de empreendedores cívicos e novas políticas de inovação social.
Ao abordar as possibilidades de diversificação econômica, Fabrício citou frentes como economia azul, economia do mar e simbiose industrial, reforçando a importância de incorporar sustentabilidade às estratégias de desenvolvimento, em vez de mantê-la restrita a projetos isolados.
Um próximo salto, segundo ele, será conectar a economia de impacto às demais cadeias produtivas.
“Que a gente consiga territorialmente atrair também em torno dessas cadeias negócios de desenvolvimento e de impacto. Então teremos, de fato, um planejamento público conectado, amarrado, e não em ilhas.”
Impacto precisa chegar à decisão — e ao cotidiano
A discussão ampliou-se também para consumidores, empresas e gestores. Inessa lembrou que o Observatório identificou soluções relacionadas a dezenas de desafios urbanos, ambientais e sociais. “O que temos não é só um cardápio, mas é também um cardápio de grandes soluções.”
Juliana acrescentou a dimensão do consumo: conhecer, contratar e comprar de negócios de impacto também sustenta economicamente soluções para problemas concretos. Para Inessa, porém, a mudança de escala exige algo mais profundo: impacto social e ambiental precisa entrar nas decisões de gestão. “Que não sejam ondas, que vêm e vão, que fica bonito no relatório, mas que seja alguma coisa perene na tomada de decisão.”
Criar pontes e furar bolhas
Ao costurar as diferentes perspectivas, a jornalista Geiza Rocha chamou atenção para um ponto que atravessou o debate: o Rio de Janeiro não parte do zero. O estado reúne empreendedores, universidades, organizações dinamizadoras, empresas, instituições de ciência e tecnologia e iniciativas públicas. Falta transformar capacidades existentes em articulação.
“Não é falta de capacidades, porque temos todas. Se você olhar os índices de inovação e as instituições que temos no nosso território, está tudo aqui. Criar essas pontes é que vai fazer, de fato, algo mudar.”
Para Geiza, isso também significa ampliar o alcance de uma agenda que ainda conversa muito com quem já está sensibilizado para o tema. “Precisamos furar bolhas e conectar essa agenda com o que é de fato o real. A vida não espera.”
A síntese reflete o percurso do painel: mapear é importante, mas não basta. É preciso conectar negócios, dinamizadores e territórios, aproximá-los das cadeias produtivas e fazer com que impacto e sustentabilidade cheguem ao planejamento público e às decisões econômicas.
“O grande chamado da sustentabilidade sempre foi tornar o mundo possível para quem vem logo em seguida. Essa é a nossa responsabilidade neste momento”, concluiu Geiza.
Mais do que ampliar o número de negócios de impacto, o debate do FITS apontou para uma mudança de escala: transformar iniciativas já existentes em redes capazes de produzir desenvolvimento, conectando impacto social e ambiental, economia e território.